O Cisco e a Trave
- amclaclitoraneasit
- 28 de jun.
- 3 min de leitura
Há pessoas que passam a vida inteira observando janelas alheias sem jamais abrir as próprias portas. Conhecem os erros dos outros, comentam suas escolhas, julgam seus caminhos, mas raramente encontram coragem para olhar para dentro de si mesmas.

Há pessoas que passam a vida inteira observando janelas alheias sem jamais abrir as próprias portas. Conhecem os erros dos outros, comentam suas escolhas, julgam seus caminhos, mas raramente encontram coragem para olhar para dentro de si mesmas.
Talvez por isso as palavras de Jesus permaneçam tão atuais quanto no dia em que foram pronunciadas:
“Por que vês o cisco no olho do teu irmão e não percebes a trave que está no teu próprio olho?” (Mateus 7:3)
Vivemos em uma sociedade que aprendeu a falar muito sobre os outros, mas pouco sobre si mesma. Em tempos de redes sociais, opiniões instantâneas e julgamentos precipitados, tornou-se cada vez mais fácil apontar falhas, criticar comportamentos e condenar atitudes sem conhecer a história completa de quem está do outro lado.
O mais interessante nessa passagem bíblica é que Jesus não afirma que o cisco não existe. Ele apenas nos convida a uma reflexão profunda: antes de tentar corrigir o outro, é necessário examinar a nós mesmos.
A verdade é que todos carregamos limitações, imperfeições, dores e fragilidades. Nenhum ser humano atravessa a vida sem cometer erros. No entanto, reconhecer as próprias falhas exige uma coragem que nem todos estão dispostos a desenvolver.
Muitas vezes, a crítica constante ao próximo nasce justamente da dificuldade de encarar as próprias feridas. É mais confortável observar a caminhada alheia do que enfrentar nossas inseguranças. É mais fácil apontar os tropeços dos outros do que admitir os nossos. E é exatamente nesse comportamento que muitas pessoas acabam ficando presas, sem perceber que o tempo passa enquanto continuam ocupadas demais administrando vidas que não lhes pertencem.
Talvez seja por isso que tantas pessoas não consigam romper suas próprias bolhas. Ficam aprisionadas em ressentimentos, comparações, invejas e julgamentos que as impedem de crescer. Enquanto observam quem avança, deixam de investir energia em sua própria transformação.
A aceitação surge, então, como uma das formas mais elevadas de sabedoria. Aceitar não significa concordar com tudo o que acontece. Também não significa desistir ou se acomodar. Significa compreender que existem situações que não podemos controlar e que lutar contra a realidade apenas prolonga o sofrimento.
Quando aprendemos a aceitar aquilo que não podemos mudar e a transformar aquilo que está ao nosso alcance, descobrimos uma paz que não depende da aprovação dos outros. Descobrimos que nossa identidade não está nas opiniões alheias, mas nos valores que cultivamos e nas escolhas que fazemos diariamente.
Com o passar dos anos, a vida também nos ensina outra grande verdade: cargos passam, posições mudam, circunstâncias se transformam. O que permanece é aquilo que construímos ao longo da caminhada. Permanecem as sementes plantadas, as vidas tocadas, os projetos realizados, os ensinamentos compartilhados e os gestos de amor que deixamos pelo caminho.
A maturidade não nasce quando aprendemos a apontar falhas. Ela nasce quando desenvolvemos a coragem de reconhecer as nossas.
Os aplausos passam. As críticas também. Mas o legado permanece.
E legado não é aquilo que dizem sobre nós. É aquilo que deixamos na vida das pessoas depois que seguimos adiante.
Antes de procurar o próximo cisco, vale a pena perguntar: que trave ainda preciso remover dos meus próprios olhos?
Porque a verdadeira sabedoria não está em enxergar os erros do mundo, mas em permitir que a luz da consciência ilumine primeiro o nosso próprio coração.
Tania Castelliano



Comentários